Leila B. Mostaço-Guidolin

Birkie 2015 - uma experiência bem menos traumática April 9, 2015


Ufa! Cheguei em casa. Após viajar quase 18h de viagem no total, para chegar em Cable, WI e voltar, cá estou eu. A razão desta viagem maluca foi para participar do American Birkebeiner - a maior prova de cross country esqui do continente e uma das maiores do mundo.

Todo ano, desde 1973, cerca de 10.000 esquiadores (sim! 10 mil! Elite, fanáticos, aventureiros e estreantes) migram para essa região de Wisconsin no final de Fevereiro. Carinhosamente conhecido como “Birkie”, essas provas fazem parte do circuito mundial de maratonas. São nada menos do que 54km no estilo clássico e 51km de skate. O percurso liga a cidade de Cable à Hayward, onde a linha chegada fica bem no centro da cidade, sendo que os últimos 500m são percorrendo as ruas lotadas de espectadores torcendo e fazendo a maior festa desde o 1o até o último esquiador. Além dessas provas, há também o Korte que nada mais é do que quase metade do percurso do "Birkie" (23km skate ou clássico) e o Prince Haakon que é uma prova de 12km.

Dependendo do tempo em anos anteriores (ou em provas classificatórias), cada esquiador é designado a uma “wave” (que vai da Elite até a 10). Cada uma possui um bib (aquele número no peito/costas que usamos para competir) de cor diferente e uma numeração especifica. Cada wave costuma ter em torno de 900 esquiadores (exceto a Elite, que possui 200). Homens, mulheres, pessoal que vai encarar o Birkie, pessoal que vai fazer o Korte e pessoal que vai fazer o Prince Haakon largam juntos no aeroporto de Cable (sim! Imagina a loucura!).

Essa é uma panoramica da área da largada as 7am:

cross country manitoba ski brazil leila

Se você procurar no Google, você vai achar referências ao que o pessoal chama de “Birkie Fever” (Febre do Birkie). São atletas de ponta e amadores totalmente tomados pela contagem regressiva para o evento. Blogs, notícias, fotos, análises, e é claro, muitos comentários e especulação sobre como estará o clima no dia da prova não param de aparecer online assim que Fevereiro começa.

O pessoal do Team WindChill (minha equipe local) não é diferente: são todos infectados pela febre. Todos treinam pensando no Birkie, competem outras provas pensando no Birkie…é muito engraçado como essa prova é capaz de virão uma tradição tão forte nesse esporte. O Brent, nosso técnico, já correu mais de 20 edições! Viajar para correr o Birkie é mais do que religião. É uma febre mesmo.

Por hora, eu sou a única integrante da equipe que tem objetivos um pouco diferentes dessa turma. Mas mesmo assim, se o calendário permite, não tenho como fugir. Ok..em 2013 eu até fugi, mas por motivo óbvios: quem em sã consciência se arriscaria a competir numa prova de 50km tendo começado a esquiar há menos de 1 ano? rs Seria quase que o equivalente a fazer uma longa travessia em mar aberto, tendo aprendido a nadar alguns meses antes. :)

Enfim…ano passado foi a minha 1a experiência competindo no Birkie. Para quem não leu o post, segue o link: click here. Foi uma experiência traumática. Eu não queria nem pensar em fazer isso de novo. Mas aí a poeira baixa, você começa a esquecer dos detalhes, das sensações…e começa a pensar: se ano passado tinha sido o evento com as piores condições climáticas, acho que é justo voltar para ver como são as coisas em condições “normais" - se é que existe condições normais no esqui. rs

Eu estava inscrita para fazer os 51km skate, mas com a mudança de planos para participar da IBU Cup em Canmore, resolvi mudar para o Korte (metade). Fazer uma prova dessas há uma semana de competir num evento importante não seria algo muito esperto da minha parte. :)

Apesar da longa viagem, a experiência deste ano foi completamente diferente. O clima ajudou (-12oC no dia da corrida!), a neve estava boa e eu estava sem toda aquela ansiedade do ano anterior. Eu estava decidida a fazer uma boa prova, mas tentando focar bastante na técnica…usá-la como um treino de luxo, pois em Winnipeg o frio está tão forte (-20oC, -30oC…) que anda difícil treinar ter condições boas para treino na neve.

Tentei tirar algumas fotos antes e depois da corrida, mas infelizmente não deu para registrar tudo que eu gostaria. ;)

Essa é mais uma foto da região da largada. Essas tendas gigantes são aquecidas e o pessoal fica lá dentro enquanto espera o horário da sua respectiva “wave” (sai uma a cada 5min, alternando clássico e skate, a partir das 8am).

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Mais uma da area da largada. É uma loucura! Esquis para todos os lados, filas enormes para os banheiros, pessoas dando os últimos retoques na cera, gente correndo para lá e para cá para deixar as sacolas com roupas secas nas areas designadas pela organização. Cada um recebe um saco gigante para colocar roupas, agua, comida ou qualquer coisa que queira para quando terminar a prova. Esses sacos são numerados e transportados para a região da chegada. Como é nele que você tem que colocar o casaco ou qualquer outra coisa que esteja vestindo ANTES da largada, é sempre uma correria, pois ninguém quer ficar lá fora sem casaco por muito tempo. Logo, é bem comum ver pessoas atrasadas e desesperadas para não perder a hora da largada da “wave".

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Bom, esse ano as coisas estavam mais tranquilas. Eu era a última do meu grupo a largar (na wave 6); a maioria do pessoal com quem eu estava esquia nas waves elite, 1, 2 ou 3. Ano passado eu estava na 10, pois foi meu 1o ano e eu ainda não tinha “histórico" nem feito nenhuma prova classificatória para maratona. Por isso, tive que ir cedo com eles e ficar um tempo lá esperando a minha largada. :) Foi bom porque deu para eu olhar melhor o evento, tirar uma fotos…e pegar a infinita fila do banheiro! hehehe

Para chegar na area da largada, a gente precisa pegar um ônibus que sai da area de estacionamento (imaginem 10000 pessoas tentando estacionar “perto" da largada..não dá, né?). Essa viagem de ônibus leva uns 20-30min.

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A organização e logística é beirando a perfeição. O trabalho da organização é impecável, se voce considerar tudo que esta envolvido num evento desse porte. Foi uma pena que não consegui registrar a “fila infinita” de ônibus amarelos na região do estacionamento. rs

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Quando descemos perto da largada, temos que andar uns 5-10min até a região das tendas. Essa caminhada é o que eles chamam de “Birkie Fever Lane” (Caminho da Febre do Birkie). Novamente foi uma pena eu não estar com o meu celular em mãos. É uma sensação única andar no meio de tantos esquiadores…cada um com o seu único objetivo…e você lá no meio. Sendo apenas o bib número XXXX.

Algumas placas bem humoradas colocadas ao longo desse caminho:

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Esse negócio das “waves" é um assunto muito sério. Tem todo um status envolvido. Se você é de alguma wave mais alta isso significa que você: 1) está lá apenas para se divertir e passear;
2) não é um esquiador tão bom assim para estar na wave acima. Parece que o pessoal da wave 2-3 são os mais “agressivos" pois eles estão tentando ano após ano subir para a wave 1. Os da wave 1, acham que merecem estar na Elite, logo são ainda mais agressivos. O pessoal da 6-9 são mais relaxados e na maioria das vezes estão lá para curtir o dia e melhorar o tempo pessoal. Enfim, se você estiver interessado em ler mais sobre essa doideira do Birkie, o blog do Ari tem bastante informação (click here). Lá você consegue ter uma ideia do quão sério é o negócio…seja para wave 1, seja para wave 10. ;)

A minha prova foi ótima. Surpreendentemente muito boa. Terminei na 4o colocação da minha categoria (de 40), fechando os 23km em 1h48min15s. Isso garantiu ficar em 95/602 no feminino e 308 de 1377 no geral. Bati na trave para entrar no “seleto grupo dos 20%” (isso é estória para outra hora. Além das waves, outra coisa que o pessoal fica doido para atingir é o grupo dos top 20%, top 10% e top 5%).

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(a imagem tem um borrão, pois resolvi apagar o rosto da pessoa que estava atrás de mim.. ;) )
Me senti muito bem esquiando, as minhas descidas estão cada dia melhores - já deu para ver como fica fácil pegar pessoas quando descemos na velocidade máxima, sem medo de ser feliz..rs. Se tudo der certo, acho que da próxima vez que eu for para o “Birkie" eu estarei na wave 2! Um belo salto! :)

Depois da minha prova, como eu era a que terminaria primeiro, fui encontrar com o restante do meu time. E é claro que aproveitei para curtir um pouco d loucura da linha de chegada. :) Ano passado eu mal consegui cruzar a linha de chegada. Este ano, consegui até “turistar" por lá! hehe

Mais uma plaquinha, desta vez no caminho que ligava a linha de chegada à escola que estava sendo usada como “base”, para todo mundo poder trocar de roupa, tomar uma sopa (sim! Tem um sopão grátis para todos os bravos guerreiros que sobrevivem ao desafio)..

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Linha de chegada. Quem completa o Birkie ou o Korte pela 1a vez ganha uma medalha. Depois o prêmio passa a ser um pin referente ao número de vezes que a pessoa completou a prova. Quem já fez mais do que 25 vezes, passa a usar um bib na cor roxa e um pin especial. :)

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Telao gigante mostrando o nome e os tempos, alem dos resultados gerais…

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E por fim, a vista da main street, onde fica a linha de chegada lá na frente. O clima dos últimos metros é fantástico!

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Bom, essa foi a minha aventura do final de semana. Agora é descansar alguns dias, preparar a as malas, esquis e rifle para embarcar rumo a Canmore. Estas serão as minhas primeiras provas oficiais de biathlon. Uma bela surpresa no final da temporada. Torçam por mim! :)



- English version - Birkie 2015 - a much less traumatic experience

Phew! Arrived home. After more than 18h of traveling this weekend to get to Cable, WI and back, here I am. The reason for this crazy trip was to race at the American Birkebeiner - the largest cross country ski race in America and one of the largest in the world.

Every year since 1973, more than 10,000 skiers (elite, fanatics, adventurers and newcomers) migrate to this region of Wisconsin in late February. Affectionately known as "Birkie", these races are part of the world circuit of marathons. They are nothing less than 54km classic and 51km skate. The route connects the city of Cable to Hayward, where the finish line is located at the main street, and the last 500 meters are filled with spectators cheering and having a huge party from the first until the last skier. In addition to these races, there is also the Korte which is nothing more than almost half of the "Birkie" (23km skate or classic) and the Prince Haakon which is a 12km race.

Depending on the results in previous years (or qualifying races), each skier is assigned to a "wave" (which goes from Elite to 10). Each one has different bib number color and a specific numbering. Each wave usually has around 900 skiers (except the Elite, which features 200). Men, women, people who will race the Birkie, the Korte and the Prince Haakon start out together at the Cable Airport (yes! Imagine the madness!).

This is a panoramic view of the start area at 7am:

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If you search on Google, you will find references to what people "Birkie Fever". Top athletes and amateurs are totally taken by the countdown to the event. Blogs, news, photos, reviews, and of course, lots of comments and speculation about what will the weather on race day start to appear online as soon as February begins.

And with my firends from Team WindChill (my local team) that's not different: they are all infected by the fever. They all train thinking about the Birkie; they compete in other events wondering about the Birkie ... it is very funny how this race can become such a strong tradition in this sport. Brent, our coach, has done it more than 20 times! Travelling to race the Birkie is more than religion for them. It is indeed like a fever.

For now, I'm the only member of the team that has slightly different goals. But even so, if the schedule allows, I can not escape from racing the Birkie. Ok..in 2013 I ran away, but for obvious reasons: who in their right mind would dare to compete in a 50km race, after having started to ski less than one year before? lol That would be almost the equivalent of swimming a big open water event, after having learned how to swim few months before. :)

Anyway ... last year was my first experience racing the Birkie. For those who have not read the post, that's the link: click here . It was a traumatic experience. I did not want to think about doing it again. But then the dust settles, you start to forget the details, the sensations ... and start thinking, if last year was the race with the worst weather conditions ever, I think it's fair to go back to see how things are in "normal" conditions - if there is "normal" in ski. hehehe

I was originally registered to race the 51km skate, but with the change of plans to attend the IBU Cup in Canmore, I decided to switch it and do the Korte (half). Racing a marathon a week before competing in a major event would not be something very smart. :)

Despite the long driving, this year's experience was completely different. The weather helped (-12oC on race day!), The snow was good and I was without all the anxiety of last year. I was determined to have a good race, but rather trying to focus on technique ... using it as a luxury training because in Winnipeg the temperature has been so low (-20 ° C, -30 ...) that it is making hard to have good conditions for training on the snow.

I tried to take some pictures before and after the race, but unfortunately I couldn't record everything I would like to. ;)

This is another photo of the start area. These giant tents are heated and the skiers stay in there while waiting for the start of their respective "waves" (out once every 5 minutes, alternating classic and skate, from 8am).

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One more from the starting area. It's crazy! Skis everywhere, huge lineups for the toilets, people making the final touches on wax, people running to leave the bags with dry clothes at the areas designated by the organizers. Each skier gets a giant bag to put clothes, water, food or anything you want to have when you finish the race. These bags are numbered and transported to the finishing area. As that is where you have to put the jacket or anything else you might be wearing BEFORE the start, it is always a big rush to have this bag dropped. Nobody wants to be outside without a coat for a long time. Therefore, it is very common to see people desperate, late or simply trying to not lose the time of the start of their "waves".

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This year things were running smooth. I was the last of my group to start (in wave 6); most of them was skiing on waves elite, 1, 2 or 3. Last year I was at wave 10 because it was my first year and I did not have previous results nor did any qualifying marathon races. Therefore, I had to go early with them and wait for a while there waiting for my start. :) It was good because it gave me a chance to walk around, take photos ... and stay at the infinite-bathroom-lineup! hehehe

To get to the start area, we need to take a bus that leaves from the parking area (imagine 10,000 people trying to park "close" the start...it would not work well, right?). So, this bus ride takes about 20-30min.

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The organization and logistics was to perfection. The organizers' work is impeccable, if you consider all that is involved in an event of this magnitude. It was a shame I could not register the "infinite line" of yellow buses in the parking area. hehe

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When we arrive, near to the start, we then have to walk 5-10min to the region where the tents are. This walk is what they call "Birkie Fever Lane". Again it was a shame I was not with my phone in hand. It is a unique feeling to walk in the middle of so many skiers ... each one with its only goal ... and you are there in the middle. Just being the bib number XXXX.

Some humorous posts along this path:

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This "wave" thing is a very serious matter, as it has an entire "status" that gets in there. If you are in some higher wave that means you: 1) is there just for fun and sightseeing; 2) is not a good enough skier to be place on the wave above. It seems that the wave 2-3 are the most "aggressive" ones, as they are all trying to make to the wave 1 the year after. Wave 1 skiers, in general think they deserve to be in the Elite wave, so they are even more aggressive. The waves 6 to 9 are more relaxed and most of the time people are there to enjoy the day and improve their personal times. Anyway, if you are interested in reading more about all this craziness, Ari's blog has lots of information (click here). There you can have an idea of ​​how serious is the business ... from wave 1 to wave 10. ;)

My race was great. Surprisingly, very very good. I finished in 4th place in my age group (out of 40), doing 23km in 1h48min15s. This got me to be 95/602 among the females and 308 of 1377 overall. I also almost got to enter the "20% special group" (this is story for another time, but quickly: in addition to the waves, all skiers there are crazy about making to the top 20%, top 10% and top 5% of each race).

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(yes! the image has a blur because I decided to "erase" the face of the person who was standing behind me ..;))
I felt great skiing, downhill are getting better and better every day - I could see how easy it is to catch people when we go down at full speed, without fear...hehehe. If all goes well, I think the next time I go to the "Birkie" I will be in wave 2! An amazing jump! :)

After my race, as I was the first one to finish, I went down to meet with the rest of my team. And of course, I took the opportunity to enjoy a little the crazy finish line. :) Last year I barely managed to cross the finish line. This year, I even managed to be a "tourist" there! Hehe

That's another fun sign, this time placed on the way that connected the finish line to the school that was being used as a "base camp" where everyone could change clothes, drink soup (yes! the offer free soup for all the brave warriors who survive the challenge).

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Finish line. Everyone who complete the Birkie or the Korte for the first time gets a medal. After the first year, the award becomes a pin with the number of times the person has completed the race. Who has done more than 25 Birkies, shall use a purple bib and a gets special pin. :)

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Big screen showing the live results and overall standings...

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And finally, the Main Street view, where the is the finish line. The atmosphere of the last meters is just awesome!

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Well, that was my adventure this weekend. Now I can rest for a couple of days, before packing again, getting the skis and rifle ready to go to Canmore. These will be my first official biathlon races. A nice surprise at the end of the season. Cheer for me! :)